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E, epa Babá!

Vestimos branco toda sexta-feira para celebrar o nosso pai Oxalá! Não podemos esquecer de saudar o grande senhor funfun, pois em momentos complicados, sempre é a ele que recorremos. Quando não podemos evocar a mais nenhum outro Orixá, é a ele, Oxalá que pedimos misericórdia! Epa epa, Babá!

Axé nos nossos caminhos!

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África

Leonardo Boff – teólogo, filósofo e escritor

leonardo

Milhares de pessoa em toda a África do Sul misturam choro com dança, festa com lamentos pela morte de Nelson Mandela. É a forma como realizam culturalmente o rito de passagem da vida deste lado para a vida do outro lado, onde estão os anciãos, os sábios e os guardiães do povo, de seus ritos e das normas éticas. Lá está agora Mandela de forma invisível mas plenamente presente acompanhando o povo que ele tanto ajudou a se libertar.

Momentos como estes nos fazem recordar de nossa mais alta ancestralidade humana. Todos temos nossas raízes na África, embora a grande maioria o desconheça ou não lhe dê importância. Mas é decisivo que nos reapropriemos de nossas origens, pois elas, de um modo ou de outro, na forma de informação, estão inscritas no nosso código genético e espiritual.

Refiro-me aqui a tópicos de um texto que há tempos escrevi sob o título Somos todos africanos, atualizado face à situação atual mudada. De saída, importa denunciar a tragédia africana: é o continente mais esquecido e vandalizado das políticas mundiais. Somente suas terras contam. São compradas pelos grandes conglomerados mundiais e pela China para organizar imensas plantações de grãos que devem garantir a alimentação, não da Africa mas de seus países, ou negociadas no mercado especulativo. As famosas land grabbing possuem, juntas, a extensão de uma França inteira. Hoje, a África é uma espécie de espelho retrovisor de como nós humanos pudemos no passado, e podemos hoje ainda, ser desumanos e terríveis. A atual neocolonização é mais perversa que a dos séculos passados.

Sem olvidar esta tragédia, concentremo-nos na herança africana que se esconde em nós. Hoje é consenso entre os paleontólogos e antropólogos que a aventura da hominização se iniciou na África, cerca de 7 milhões de anos atrás. Ela se acelerou passando pelo homo habilis, erectus, neanderthalense até chegar ao homo sapiens, cerca de 90 mil anos atrás. Depois de ficar 4,4 milhões de anos em solo africano, este se propagou para a Ásia, há 60 mil anos; para a Europa, há 40 mil anos; e para as Américas há 30 mil anos. Quer dizer, grande parte da vida humana foi vivida na África, hoje esquecida e desprezada.

A África, além de ser o lugar geográfico de nossas origens, comparece como o arquétipo primal: o conjunto das marcas, impressas na alma de todo ser humano. Foi na África que este elaborou suas primeiras sensações, onde se articularam as crescentes conexões neurais (cerebralização), brilharam os primeiros pensamentos, irrompeu a criatividade e emergiu a complexidade social que permitiu o surgimento da linguagem e da cultura. O espírito da África está presente em todos nós.

Identifico três eixos principais do espírito da África, que podem nos inspirar na superação da crise sistêmica que nos assola.

O primeiro é o amor à Mãe Terra, a Mama Africa. Espalhando-se pelos vastos espaços africanos, nossos ancestrais entraram em profunda comunhão com a Terra, sentindo a interconexão que todas as coisas guardam entre si, as águas, as montanhas, os animais, as florestas e as energias cósmicas. Sentiam-se parte desse todo. Precisamos nos reapropriar deste espírito da Terra para salvar Gaia, nossa Mãe e única Casa Comum.

O segundo eixo é a matriz relacional (relational matrix no dizer dos antropólogos). Os africanos usam a palavra ubuntu que significa:”Eu sou o que sou porque pertenço à comunidade” ou “eu sou o que sou através de você, e você é você através de mim”. Todos precisamos uns dos outros; somos interdependentes. O que a física quântica e a nova cosmologia dizem acerca de interconexão de todos com todos é uma evidência para o espírito africano.

A essa comunidade pertencem os mortos como Mandela. Eles não vão ao céu, pois o céu não é um lugar geográfico, mas um modo de ser deste nosso mundo. Os mortos continuam no meio do povo como conselheiros e guardiães das tradições sagradas.

O terceiro eixo são os rituais e celebrações. Ficamos admirados que se dedique um dia inteiro de orações por Mandela, com missas e ritos. Eles sentem Deus na pele, nós ocidentais na cabeça. Por isso dançam e mexem todo o corpo, enquanto nós ficamos frios e duros como um cabo de vassoura.

Experiências importantes da vida pessoal, social e sazonal são celebradas com ritos, danças, músicas e apresentações de máscaras. Estas representam as energias que podem ser benéficas ou maléficas. É nos rituais que ambas se equilibram e se festeja a primazia do sentido sobre o absurdo.

Notoriamente, é pelas festas e ritos que a sociedade refaz suas relações e reforça a coesão social. Ademais nem tudo é trabalho e luta. Há a celebração da vida, o resgate das memórias coletivas e a recordação das vitórias sobre ameaças vividas.

Apraz-me trazer o testemunho pessoal de um dos nossos mais brilhantes jornalistas, Washington Novaes:”Há alguns anos, na África do Sul, impressionei-me ao ver que bastava se reunirem três ou quatro negros para começarem a cantar e a dançar, com um largo sorriso. Um dia, perguntei a um jovem motorista de táxi: “Seu povo sofreu e ainda sofre muito. Mas basta se juntarem umas poucas pessoas, e vocês estão dançando, cantando, rindo. De onde vem tanta força?” E ele: “Com o sofrimento, nós aprendemos que a nossa alegria não pode depender de nada fora de nós. Ela tem de ser só nossa, estar dentro de nós”.

Nossa população afrodescendente nos dá a mesma amostra de alegria que nenhum capitalismo e consumismo pode oferecer.

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O Belíssimo Panteão de Orixás

C. Lewis diz estar surpreso com a repercussão de suas fotos, e este comentário, feito em seu blog, servirá de ponto inicial para este texto. Seu espanto vem de um cenário peculiar: o da não existência de um trabalho deste tipo em torno dos orixás do candomblé. Quando se fala, por exemplo, no catolicismo (e este é utilizado aqui, por teoricamente ser a religião de maior predominância histórica, principalmente se falando de Brasil), as figuras em torno desta tem certa representatividade no meio social.

Ainda que você não tenha uma educação religiosa, você pode distinguir imagens de Nossas Senhoras ou de alguns Santos mais populares. No candomblé, por sua parte, não há esta clara visualização. Isto se dá, claro, por inúmeros fatores que aqui poderiam ser descritos, tais como a imagem que se criou em torno da religião, a sua constituição no meio social e afins… Mas, apesar de toda essa discussão, o ponto mais importante está localizado no olhar do fotografo para estas divindades, uma vez que revela uma interessante percepção a frente do modo de se compreender tal modo religioso e a sua representatividade no meio social.

A representação das imagens, segundo o fotografo, tem como objetivo emprestar força ao movimento de resistência, mostrando ao público a beleza dos orixás. Ainda como destaque de sua fala, e que precisa constar, está a clara falta da inserção desta cultura no currículo escolar. Dito isto, contemplemos as fotografias(sendo representados 20, dos 400 orixás):

Os textos retirados de algumas das imagens abaixo são retirados de: ensinoreligioso

 

Iemanjá: identificada como a “rainha do mar”, é uma das que goza de maior popularidade no Brasil. Essa divindade é tida como a deusa-mãe da humanidade (o que torna comum que haja sincretismo com Nossa Senhora), sendo associada com as cores branco e azul.

Xangô: atrevido e viril, é o deus do fogo, dos raios e trovões e da justiça, castigando os mentirosos e os ladrões. Filho de Oranian com Iemanjá, toma três deusas como esposas: Oyá, Oxum e Obá. Representa também a masculinidade e a sexualidade masculina. Na santeria (religião cubana derivada do yorubá, como o nosso candomblé) houve sincretismo de Xangô com Santo Antônio.

Ogum: o orixá ferreiro, que forjava suas próprias armas, é também um grande guerreiro, deus da caça, da agricultura e da guerra. Foi um dos primeiros deuses a ser cultuado no yorubá, e acredita-se que ele tenha sido um dos primeiros a descer do Orun (Céu) para o Aiye (Terra). No Brasil, é comum que ele seja identificado com São Jorge.

Oyá: também conhecida como Iansã, é a deusa guerreira dos ventos e dos furacões. Geralmente, a recebe como oferenda o acarajé, sua comida favorita, e é identificada pelas cores rosa, tons de roxo e marrom. Trata-se de uma das orixás femininas mais imponentes e poderosas.

Oxum: a deusa da beleza, da fertilidade, do amor e das águas doces dos rios. Oxum seria uma das esposas de Xangô, e segundo a mitologia yorubá teria desavenças com outra de suas esposas, Obá.

Obá: deusa do casamento e da vida doméstica, essa filha de Iemanjá seria muito poderosa, e temida por diversos dos outros orixás. Foi a primeira esposa de Xangô, e cortou a orelha para provar seu amor pelo marido (ainda que haja versões em que foi enganada a fazer isso por Oxum). Também é a deusa dos rios, mas das águas revoltosas: pororocas e cachoeiras são o seu domínio.

Ibeji: os gêmeos sagrados são orixás crianças, um menino e uma menina, que teriam os nomes de Kehinde e Taiwo. São os deuses da juventude e da vitalidade. Segundo a mitologia yorubá, os gêmeos Ibeji são filhos abandonados por Oyá, que os teria jogado na água depois do parto, sendo então criados por Oxum como seus próprios filhos. No Brasil, é comum que sejam sincretizado com os santos Cosme e Damião.

Omolu: conhecido também como Obaluaiyê, é o orixá da varíola e das doenças contagiosas, e portanto também muito ligado à morte. Porém, assim como Omolu traz a doença, também tem o poder de afastá-la, e é atribuído a ele muitas curas milagrosas. Muitas vezes é sincretizado como São Lázaro.

Exu: orixá da comunicação, o mensageiro entre o mundo material e espiritual, e também protetor das aldeias, das casas e das encruzilhadas. É irreverente, provocador e brincalhão, e por esse motivo foi erroneamente identificado com o diabo pelos colonizadores da África.

Oxalá: no Brasil, todos vários orixás funfun (do branco), entre os quais Obatalá e Orixalá, acabaram recebendo o nome genérico de Oxalá e sendo agrupados sob uma mesma imagem. Esse é o deus da humanidade, descendente direto de Olorum (o orixá criador). É uma divindade mais rígida, e muitas vezes opõe-se à natureza irreverente de Exu. No Brasil, houve sincretismo com o Senhor do Bomfim da Bahia.

Oxumaré: essa complexa figura é protetor das crianças e dos cordões umbilicais, divindade da mobilidade e do arco-íris. Na Bahia costuma ser sincretizado com São Bartolomeu. Curiosamente, tanto por seu símbolo ser o arco-íris quanto por muitos acreditarem que esse orixá é ao mesmo tempo homem e mulher, ele é tido por algumas pessoas como o protetor dos homossexuais.

Olokum: senhor dos mares profundos e dos abismos – e, por consequência, do conhecimento profundo que será sempre um mistério. Esse orixá é metade homem, metade peixe, e tem um temperamento misterioso e violento.

 

 

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Os Provérbios no Candomblé

  • Mãe Stella destaca a sabedoria dos provérbios.
  • Foto: Diego Mascarenhas | Ag. A TARDE| 09.07.2010
  • Maria Stella de Azevedo Santos
  • A cultura africana sugere que o que existe em potencial no universo pode ser materializado pela palavra. Além da palavra, a memória também é reverenciada pela oralidade. Os fatos passados são reavivados pela memória e re-atualizados pelos rituais. No Candomblé, a vivência mítica das divindades é cantada e contada através do que é chamado de Corpo das Tradições Orais, do qual os provérbios, ówe na língua yorubá, fazem parte.
  • Os provérbios fazem parte da oralidade africana, mas também de todos os outros continentes. É universal a maneira de falar em frases curtas e expressivas. Aristóteles disse: “relíquia que, em virtude de sua brevidade e exatidão, salvaram-se dos naufrágios e das ruínas das antigas filosofias”. Os provérbios podem ser conceituados como: Enunciados breves, de origem desconhecida, que expressam uma sabedoria a ser utilizada em qualquer tempo e lugar; Frases sintéticas, cujos conteúdos condensados expressam grande sabedoria; Fontes de prazer que, pela sua estrutura, possibilita ao cérebro fixar mensagens que colaboram para que o homem se harmonize consigo e com o outro.
    Diz-se que uma frase expressiva é um provérbio quando: sua origem é desconhecida porque seu autor se perdeu no tempo, uma vez que geralmente é pronunciada de maneira natural a partir de uma determinada situação; torna-se popular, porque sendo criada a partir de uma circunstância particular, passa a ser utilizada pela população em geral, sempre que circunstâncias semelhantes voltam a acontecer; é universal, pois muitas frases curtas e com sentido são pronunciadas, mas só se tornam provérbios aquelas que possuem caráter universal, de forma ampla ou restrita – uma comunidade, por exemplo.
    Hoje é muito comum chamar um agrupamento de pessoas, que na maioria das vezes possui a população de uma cidade de porte médio no nosso país, de comunidade. Nada errado quanto a isso, pois comunidade pode ser definida como ”qualquer grupo social cujos membros habitam uma região determinada, têm um mesmo governo e estão irmanados por uma mesma herança cultural e histórica”. Como também: Grupo de pessoas que comungam uma mesma crença e que se submetem a uma mesma regra religiosa. O Ilê Axé Opo Afonjá pode ser definido de acordo com esse último conceito de comunidade, onde os provérbios são bastante utilizados. Seguem alguns exemplos:
    Você foi coroado rei, mas continua fazendo encantamentos para obter boa sorte. Você quer ser coroado Deus?
    Quem está sufocado por dívidas não deve viver como um lorde.
    Ninguém grita de dor quando cuida de suas próprias feridas.
    A pessoa que trabalha duro, ganha a inimizade do desocupado.
    Aquele que cai no buraco ensina aos que vêm atrás a terem cuidado.
    Aquele que bate palmas para que o louco dance é tão louco quanto ele mesmo.
    A boca que não se cala e os lábios que não deixam de se mexer só trazem problemas.
    A boca não pode ser tão suja que seu dono não possa comer com ela.
    O desconfiado sempre pensa que as pessoas estão falando mal dele.
    Quem não sabe construir uma casa, monta uma barraca.
    Somente um barril vazio é que faz barulho, um saco cheio de dinheiro permanece silencioso.
    O que eu quero comer você não quer comer, devemos comer separados.
    As características dos ditados populares fazem deles excelentes instrumentos de trabalho educacional. São características como: Brevidade – frases curtas que facilitam o registro e memorização da verdade embutida neles; Agudeza – fazem uma crítica da vida, usando uma dose de ironia, que facilita a reflexão sobre o tema criticado; Fontes de Prazer – os provérbios produzem prazer, não só pela agudeza, mas também por possibilitar o registro e fixação de uma sábia mensagem, tendo a energia mental economizada.
    Os provérbios, portanto, podem e devem ser utilizados no sistema formal de educação, não só na área de Língua Portuguesa, mas em várias outras áreas. O ditado popular, em forma de sotaque – um dito picante – “quem nasceu para dez réis, nunca chega a vintém”, é excelente para falar dos tipos de dinheiro na história do nosso país.
    Maria Stella de Azevedo Santos é Iyalorixá do Ilê Axé Opô Afonja
    Mãe Stella destaca a sabedoria dos provérbios. Foto: Diego Mascarenhas | Ag. A TARDE| 09.07.2010
Maria Stella de Azevedo Santos
A cultura africana sugere que o que existe em potencial no universo pode ser materializado pela palavra. Além da palavra, a memória também é reverenciada pela oralidade. Os fatos passados são reavivados pela memória e re-atualizados pelos rituais. No Candomblé, a vivência mítica das divindades é cantada e contada através do que é chamado de Corpo das Tradições Orais, do qual os provérbios, ówe na língua yorubá, fazem parte.
Os provérbios fazem parte da oralidade africana, mas também de todos os outros continentes. É universal a maneira de falar em frases curtas e expressivas. Aristóteles disse: “relíquia que, em virtude de sua brevidade e exatidão, salvaram-se dos naufrágios e das ruínas das antigas filosofias”. Os provérbios podem ser conceituados como: Enunciados breves, de origem desconhecida, que expressam uma sabedoria a ser utilizada em qualquer tempo e lugar; Frases sintéticas, cujos conteúdos condensados expressam grande sabedoria; Fontes de prazer que, pela sua estrutura, possibilita ao cérebro fixar mensagens que colaboram para que o homem se harmonize consigo e com o outro.
Diz-se que uma frase expressiva é um provérbio quando: sua origem é desconhecida porque seu autor se perdeu no tempo, uma vez que geralmente é pronunciada de maneira natural a partir de uma determinada situação; torna-se popular, porque sendo criada a partir de uma circunstância particular, passa a ser utilizada pela população em geral, sempre que circunstâncias semelhantes voltam a acontecer; é universal, pois muitas frases curtas e com sentido são pronunciadas, mas só se tornam provérbios aquelas que possuem caráter universal, de forma ampla ou restrita – uma comunidade, por exemplo.
Hoje é muito comum chamar um agrupamento de pessoas, que na maioria das vezes possui a população de uma cidade de porte médio no nosso país, de comunidade. Nada errado quanto a isso, pois comunidade pode ser definida como ”qualquer grupo social cujos membros habitam uma região determinada, têm um mesmo governo e estão irmanados por uma mesma herança cultural e histórica”. Como também: Grupo de pessoas que comungam uma mesma crença e que se submetem a uma mesma regra religiosa. O Ilê Axé Opo Afonjá pode ser definido de acordo com esse último conceito de comunidade, onde os provérbios são bastante utilizados. Seguem alguns exemplos:
Você foi coroado rei, mas continua fazendo encantamentos para obter boa sorte. Você quer ser coroado Deus?
Quem está sufocado por dívidas não deve viver como um lorde.
Ninguém grita de dor quando cuida de suas próprias feridas.
A pessoa que trabalha duro, ganha a inimizade do desocupado.
Aquele que cai no buraco ensina aos que vêm atrás a terem cuidado.
Aquele que bate palmas para que o louco dance é tão louco quanto ele mesmo.
A boca que não se cala e os lábios que não deixam de se mexer só trazem problemas.
A boca não pode ser tão suja que seu dono não possa comer com ela.
O desconfiado sempre pensa que as pessoas estão falando mal dele.
Quem não sabe construir uma casa, monta uma barraca.
Somente um barril vazio é que faz barulho, um saco cheio de dinheiro permanece silencioso.
O que eu quero comer você não quer comer, devemos comer separados.
As características dos ditados populares fazem deles excelentes instrumentos de trabalho educacional. São características como: Brevidade – frases curtas que facilitam o registro e memorização da verdade embutida neles; Agudeza – fazem uma crítica da vida, usando uma dose de ironia, que facilita a reflexão sobre o tema criticado; Fontes de Prazer – os provérbios produzem prazer, não só pela agudeza, mas também por possibilitar o registro e fixação de uma sábia mensagem, tendo a energia mental economizada.
Os provérbios, portanto, podem e devem ser utilizados no sistema formal de educação, não só na área de Língua Portuguesa, mas em várias outras áreas. O ditado popular, em forma de sotaque – um dito picante – “quem nasceu para dez réis, nunca chega a vintém”, é excelente para falar dos tipos de dinheiro na história do nosso país.
Maria Stella de Azevedo Santos é Iyalorixá do Ilê Axé Opô Afonja
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Casa de Oxumarê

Na busca de transmitir nosso conhecimento e preservar a tradição das religiões de matrizes africanas, a Casa de Oxumarê vai postar em sua fan page, semanalmente, pequenos textos, pílulas de informações, sobre alguns dogmas da nossa religião. Vamos desmitificar alguns mistérios. O que pode e não pode ser feito seguindo os princípios do candomblé. Aguardem!
Na busca de transmitir nosso conhecimento e preservar a tradição das religiões de matrizes africanas, a Casa de Oxumarê vai postar em sua fan page, semanalmente, pequenos textos, pílulas de informações, sobre alguns dogmas da nossa religião. Vamos desmitificar alguns mistérios. O que pode e não pode ser feito seguindo os princípios do candomblé. Aguardem!
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Oriki Ori

Todos os dias, devemos saudar nosso Espírito encarnado, que é nosso Ori.

Devemos nos lembrar que quando o nosso Ori está “quente”, ficamos atônitos, sem a certeza de que estamos no caminho certo… Porque? Porque é ele que permite que o nosso guardião Orìsà possa nos orientar. Quando isso acontece, devemos “refrescar a cabeça”, fazendo um Borì.

Um Oriki, que faz muito bem ao nosso Orì:

 

ORÍ SAN MI. ORÍ SAN MI.

ORÍ SAN IGEDE. ORÍ SAN IGEDE.

ORÍ OTAN SAN MI KI NNI OWO LOWO.

ORÍ TAN SAN MI KI NBIMO LE MIO.

ORÍ OTO SAN MI KI NNI AYA.

ORÍ OTO SAN MI KI NKOLE MOLE.

ORÍ SAN MI O. ORÍ SAN MI O. ORÍ SAN MI O.

OLOMA AJIKI, ÌWÁ NI MOPE. ASE.

BÍ O BÁ MAA LÓWÓ, BÈÈRÈ LÓWÓ ORÍ RE.

BÍ O BÁ MÁA SÒWÒ, BÈÈRÈ LÓWÓ ORÍ RE W O.

BÍ O BÁ MÁA KOLÉ O, BÈÈRÈ LÓWÓ ORÍ RE.

BÍ O BÁ MÁA LÁYA O, BÈÈRÈ LÓWÓ ORÍ RE WO.

ORÍ MÁSE PEKÙN DÉ.

LÓDÒ RE NI MI MBÒ.

WÁ SAYÉÈ MI DI RERE. ASE.

ORÍ MI YÉ O, JÀ JÀ FUN MI.

ÈDÁ MI YÉ O, JÀ JÀ FUN MI. ASE.

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Itáns Nos Caminhos De Odù

1 – Òkanràn – Fala Èxù em 5 caminhos (ese).

1º. Caminho de Odù: Na antiga época, o galo era um dos maiores olhadores e a sua fama corria muito longe. Foi por isso chamado pelo chefe de um povoado para fazer-lhe uma consulta com os búzios, pois assolava uma grande seca naquela área.

Antes de sair, o galo fez um ebó com sete varetas, sete preás e sete acarajés.

Ao chegar ao portão do povoado, o porteiro advertiu-o que não conhecia a sua procedência e, assim não podia entrar. Ao ser impedido, o galo irritou-se e retirou de sua capanga uma arma, provocando um grande derramamento de sangue. O porteiro então lhe rogou pragas que em minutos a qualidade do tempo mudou naquele lugar, fazendo com que o sol sumisse e viesse uma grande tempestade. Com isso, o galo seguiu direto para a casa do dono do lugar. Ao chegar, foi recebido com admiração e louvor, e, em decorrência do grande feito recebeu uma enorme quantia de búzios e acomodações de luxo, tornando-se rico além de famoso.

Observações:

A qualidade-momento apresenta uma série de situações: Dificuldades iminentes, falta de entendimento, conflito com luta e mau presságio.

Interpretação:

Por ter feito o ebó recomendado pela mesa de jogo, o galo reverteu à situação de forma a sair favorecido e fortalecido pelo reconhecimento do chefe do lugar, tornando-se rico e prestigiado.

O impedimento foi temporário porque o galo enfrentou com coragem e determinação a dificuldade inesperada que impossibilitava a realização do seu trabalho, transformando uma qualidade-momento negativa em um momento de mudança inesperada à seu favor.

Muitas vezes encontramos nos nossos caminhos de realização profissional pessoas que não estão dispostas a facilitarem as coisas para o nosso crescimento, com isso, muitos de nós perdemos a fé no nosso caminho ao primeiro sinal de dificuldade. Quando numa mesa de jogo de búzios um caminho como esse se apresenta, além de fazermos o ebó recomendado, devemos encarar a situação de frente para poder transformá-la a nosso favor.

Como podemos ver Èxù sempre que está presente nos traz como princípio dinâmico uma situação inesperada, porém, que pode ser resolvida usando a mesma energia como contraparte. Para isso, devemos dar admú (dar caminho) em primeiro lugar, como fez o galo antes de sair para a sua missão.

Alfredo Bião D’Osàálá

 

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Caminhos de Odù

 

11. Owórín – Fala Èxù e Yánsan 

3º. Caminho (ese): Os babàláwos contam que dois homens encontraram-se. O mais rico, dizia que só ele era capaz de conhecer a prosperidade. O outro, dizia que se alguém tem que prosperar, não haverá coisa que desfaça este destino na vida, e assim, acontecerá mais cedo ou mais tarde. O mais rico, era senhor, e o outro, escravo, de forma que o senhor resolveu comprar o outro.   O escravo com muita satisfação submeteu-se a essa condição. E, assim lá se foram os dois, até o dia em que o escravo conseguiu juntar algum dinheiro e comprar uma galinha que posteriormente lhe deu muitos pintinhos. O senhor vendo que seu servo prosperava, um dia, matou a galinha e sua ninhada. Para surpresa e desgosto do escravo, que vinha ao final do dia da roça do senhor, foi ver aquele infortúnio. Porém, nada disse, limitando-se a louvar Olórun, conformando-se com a qualidade-momento adversa. Tempo depois, comprou uma ovelha que mais tarde deu-lhes crias. Num dado dia, o perverso senhor matou a ovelha e suas crias. Vindo da lavoura ao final do dia, deparou-se o escravo com aquela cena de perversidade e disse: Se alguém tem de prosperar, não há embate que atrapalhe esse fim. Tratou então de moquear a galinha e os pintinhos, assim como, a ovelha e suas crias. Assim, com inabalável fé, animado no seu sonho dourado em prosperar no futuro, repetiu: Se alguém tem de prosperar, não há embate que atrapalhe esse fim. Logo após, o escravo procurou um olùwó de grande renome na região, que ao consultar o oráculo Ifá, concluiu que um determinado ebó era necessário, prescrevendo: Uma ovelha e crias, uma galinha com pintinhos e qualquer objeto que tenha pertencido a um defunto. Pediu que os devessem ser moqueados e guardados no teto de sua casa, como fez com aquelas que o seu senhor matou. Passado muito tempo, o rei da localidade mandou anunciar que se alguém em suas terras tivesse uma galinha com pintos, moqueados de três anos, que levasse para ele, pois, saiu para ele esse ebó numa consulta. O escravo ao saber apressou-se em apresentar-se ao rei, levando a galinha e os pintos moqueados de três anos, sendo este gesto considerado de grande benefício pelo o rei, que imediatamente doou ao escravo um terço do seu território, para que o escravo se beneficiasse com os impostos decorrentes. Assim, ficou da noite para o dia o ex-escravo do senhor feudal daquela terra, seu senhor.  Algum tempo depois, houve novo anúncio: quem tivesse ovelha assada de três anos, devia se apresentar ao rei de uma nação vizinha. O ex-escravo, previdente de novo, ofereceu ovelhas assadas e moqueadas que há muito tinha guardado. Com isso, o rei mandou fazer um ebó pela grande enfermidade que atormentava o seu povo. Fez vir à presença o felizardo cativo de outra época e ordenou que, daquela hora em diante, ele dominaria também um terço naquele reino. Seu antigo senhor, não tendo o que comer, deu a ele a velha ossada do príncipe em troca de alimentos, pois os ossos inúteis eram tudo o que lhe restava.

Assim se conta, foi sucessivamente aparecendo outro aviso, solicitando agora a apresentação de qualquer pessoa que tivesse os ossos do príncipe que falecera na guerra havia tempo. O vitorioso e persistente servo perseguido de outros tempos foi informado e, sem demora apresentou a ossada do príncipe, em cuja compra seu ex-senhor empregara todo seu rico dinheiro, quando ele ainda era escravo. Não é necessário dizer que fizeram dele um dos maiores da terra. Não só, pelos donativos que ganhou como o poder que passou a ter sobre a nação. Assim, ficou o ex-escravo sendo um dos mais felizes senhores sobre a terra.

É de notar que esse ex-escravo não quis ser dono de seu antigo senhor, ao contrário, ficou-lhe grato, querendo muito a ele e, sempre declarava a todas as pessoas que o cercavam, que ele tinha chegado àquela posição graças às maldades do seu antigo senhor e, também a inquebrantável e constante disposição que o encorajava em todos os instantes. Portanto, ele tinha por dever considerar o seu ex-dono como um dos fatores da sua prosperidade na vida. Ficaram assim, muito amigos daquela hora em diante.

Observações:

A base assinala tantas perseguições irritantes e indesejáveis transformadas no final em benefícios exclusivos aos reais proveitos. Muitas dificuldades na vida, porém, qualquer que seja o embaraço, vencerá ao perseverar.

Interpretação:

Quem nunca ouviu falar na inabalável fé e paciência de Jó?… Quem possui a inerente qualidade desse devoto de Ifá, não considera nunca a adversidade em seus caminhos como sendo uma dívida com Olódùmarè. Faz o que é devido fazer, entrega a quem de direito aquilo que o oráculo orientou, aguardando na fé, apesar dos percalços… Onde encontramos hoje esse sujeito?  Quando um caminho como esse se apresenta na nossa jornada, com a qualidade-momento aqui apresentada, qualquer um de nós considera-se um desafortunado, esquecido e injustiçado… Quem agradeceria?…

Èxù, com a sua capacidade de dinamizar e mobilizar qualquer transformação de forma inesperada está aqui presente, por outro lado, Yansán representa o transporte através dos ventos nas tempestades, carregando as sementes germinadoras e renovadoras do vir a ser para outras paragens, viabilizando assim, um renascimento em meio ao caos.  Ambos trabalham os meios e as condições que o Odù apresenta na manifestação, pois ele representa a expressão manifesta de uma configuração energética. A única causa é Olódùmarè, que representa a configuração energética que antecede o contexto dinâmico do Odù, ou seja, de onde provém a dinâmica vigente desse caminho.   Ambos formam uma unidade cíclica, um fluxo condutor.

Muitas vezes consideramos “caminhos abertos” aqueles que não apresentam percalços, pessoas que bloqueiam nosso destino, aqueles que não facilitam as coisas para nós, assim por diante…  Só que essas condições aparentemente desfavoráveis são verdadeiras alavancas transformadoras em nosso crescimento.

Alfredo Bião D’Osàálá